Por Rubens Faria

A legislação de trânsito brasileira não especifica idade para parar de dirigir, depende das condições da pessoa. Porém, se a cada dez anos é exigido o exame de aptidão física e mental para renovar a CNH (Carteira Nacional de Habilitação), de acordo com a nova legislação que entrou em vigor no mês passado, a cada cinco anos para quem tem entre 50 e 70 anos, o prazo cai para três anos para quem tem mais de 70. Essa diminuição de tempo leva em conta as dificuldades do envelhecimento.

Agora, se o idoso passou no teste, mas dentro desse intervalo seu estado de saúde declinou ao ponto de afetar sua capacidade de dirigir, cabe a ele, com incentivo familiar, promover mudanças em seu estilo de locomoção.

Assim como várias atividades diárias passam por mudanças à medida que a idade avança, com o dirigir não é diferente. Mas a boa notícia é que para alguns casos é possível dar uma ajudinha e isso tem a ver com adaptar o carro ou optar por um modelo mais moderno e que compense algumas perdas. “O carro manual exige uma coordenação maior para algumas tarefas, como engatar marcha, soltar embreagem, apertar pedais. Se o problema do idoso for puramente de limitação motora, eventualmente trocar seu carro por um automático, diminua suas dificuldades e facilite o processo de dirigir”, aconselha Natan Chehter, geriatra pela SBGG (Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia) e da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo. Ele ressalta, no entanto, que isso não exclui uma avaliação médica e de outras questões, que independem do carro auxiliar mais ou menos.

Para além da direção hidráulica e do câmbio automático, a fim de se aumentar a segurança e o desempenho, também podem ser úteis para o idoso sensores de alarme, câmeras de ré, GPS (principalmente se já não reconhece tão bem caminhos), retrovisor com campo de visão maior, volantes ajustáveis, apoios lombares, espelhos antirreflexos, sistemas de controles de velocidade, estabilidade e tração. Porém, para usar a tecnologia, é necessário o idoso querer e se sentir confortável e a família ter vontade para ensiná-lo e paciência enquanto se acostuma.

Mas quando é hora de parar de dirigir?

As primeiras pessoas a perceberem os riscos de manter o hábito de conduzir são da família. O carro não é mantido mais dentro da faixa, a velocidade aumenta ou diminui demasiadamente, fazer baliza começa a ser um problema e pequenos amassados na lataria aparecem com maior frequência. Depois desses sinais e com a intenção de proteger o idoso, a família tenta convencê-lo a parar de dirigir. Será que é o momento?

O geriatra Alexandre Leopold Busse, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) pede cautela. “O filho não pode tomar a decisão, passando por cima da vontade de um idoso que tem autonomia, ainda que a intenção seja protegê-lo”, afirma. “A decisão deve ser tomada em conjunto”. Muitas vezes é difícil que o idoso perceba e reconheça que está com dificuldades. Nesse momento, o geriatra ou o médico da família pode ajudar na conversa. “Percebemos que quando o médico faz um relatório por escrito sobre isso e entrega ao idoso e à família, o paciente tende a acatar de maneira mais positiva”, diz Busse.

Assim, por melhores que sejam as intenções dos familiares, só um especialista poderá fazer uma avaliação mais assertiva a respeito das possíveis dificuldades do idoso e que podem prejudicá-lo ou colocá-lo em risco ao volante.
Alguns dos aspectos que podem ser limitantes para a direção:

  • Déficit visual progressivo importante – Em especial problemas como glaucoma, degeneração macular e retinopatia diabética, para os quais não existe cura, apenas prevenção e controle. Uma vez que a perda de visão seja significativa, é melhor parar de dirigir. Já casos como catarata não são limitantes, pois a cirurgia pode restaurar a acuidade visual.
  • Incapacidade física – Falta de força e de rapidez de movimento dos braços, assim como perda de força nos membros inferiores, podem ser impeditivos à condução. Condições como artrose de joelhos, por exemplo, podem diminuir a força e causar dor intensa, inviabilizando os movimentos necessários para dirigir um automóvel.
  • Medicamentos – Alguns sedativos, ansiolíticos, antidepressivos e anticonvulsivantes podem afetar os reflexos. Na época em que o paciente começa a tomar as medicações ou no reajuste de doses é aconselhável parar de dirigir, pois o organismo leva cerca de duas a três semanas para se adaptar. A recomendação vale para qualquer pessoa que faça uso desses medicamentos, não apenas idosos.
  • Demência – O quadro leve não implica em contraindicação para dirigir, no entanto, é preciso uma avaliação periódica do médico e dos familiares do idoso. Alguns testes cognitivos realizados periodicamente no consultório podem ajudar a diagnosticar se o paciente consegue manter o raciocínio lógico, o planejamento e a atenção concentrada. Quadros de demência leve para moderada e mais graves já não permitem mais que a direção seja feita com segurança.
  • Reflexos – A velocidade de reação diminui com a idade, uma questão relacionada à parte neurológica e resposta muscular. Uma avaliação periódica também pode ajudar a identificar a hora certa de parar.

Depois da avaliação médica

Se o médico concordar que realmente é hora de o idoso largar o volante, a família tem que ter o cuidado de não restringir as atividades dele. “Ele não pode deixar de dirigir e ficar em casa sem manter a vida social que tinha antes”, diz o geriatra. As opções de táxi, carona ou motorista particular devem ser avaliadas pelos familiares a fim de que o idoso não se isole e desenvolva um quadro de depressão – bastante comum em situações assim.
Busse conta que nos Estados Unidos já há serviços em terapia ocupacional e fisioterapia que oferecem programas de reabilitação para o idoso sem demência continuar a dirigir. “O envelhecimento da população brasileira ainda é recente, mas devemos ver nos próximos anos surgirem especialidades desse tipo”, diz o médico. “Assim como os órgãos de trânsito deverão também adaptar as avaliações para motoristas, tornando-as mais frequentes após certa idade”.

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