Por Rubens Faria

Assim que a ameaça do Coronavírus foi identificada na China, a iniciativa pública tomou a frente das decisões dos cidadãos e não mediu esforços para conter a disseminação do vírus. Hospitais foram construídos em tempo recorde, a quarentena elevou-se a nível nacional e os 11 milhões de habitantes da cidade de Wuhan foram severamente isolados do resto do país até que a epidemia estivesse controlada.

Apesar de os dados oficiais emitidos pelo governo não serem completamente confiáveis, as medidas radicais contra o Covid-19 surtiram efeito positivo na China: 97% dos casos letais aconteceram em Wuhan e a disseminação do vírus teve ascensão mais tímida e breve, e em menos de um mês a curva de crescimento de pessoas infectadas já estava achatada.

Fonte: Rastreador do Covid-19/ Bing

Berço de outros vírus importantes como a Sars e a gripe aviária, a China tem repertório para lidar com epidemias. Não podemos dizer o mesmo de países da Europa, os quais vêm enfrentando uma longa e expoente ascensão do número de casos e que não dá sinais de desaceleramento.

Contudo, essa realidade pode mudar. Foi publicado em 17/3/2020 um estudo do Imperial College London que analisa preditivamente o impacto social da infecção segundo variáveis de isolamento, isto é, qual seria o número de infectados e casos fatais de acordo com políticas públicas de isolamento, a saber:

  • Isolamento vertical (apenas dos grupos de risco e pessoas sintomáticas), causando o que se chama de imunidade de rebanho, em que toda a população é infectada para então se tornar resistente ao vírus numa possível segunda onda epidêmica;
  • Distanciamento social, no qual pessoas saem de suas casas apenas em situações críticas e urgentes, fecham-se escolas, suspende-se todos os serviços que não são essenciais e pessoas sintomáticas ou que estiveram em contato de risco ficam em quarentena, isoladas inclusive da família.

Conforme cita o The New York Times, “o Imperial College aconselhou políticas públicas em epidemias anteriores, incluindo a Sars e as gripes aviária e suína. Com laços com a Organização Mundial da Saúde (OMS) e uma equipe de 50 cientistas liderada por um proeminente epidemiologista, Neil Ferguson, as pesquisas do Imperial são tratadas como padrão-ouro e seus modelos matemáticos alimentam diretamente decisões governamentais”.

De acordo com o estudo, a política contemplando somente o isolamento vertical da população seria responsável por 510.000 mortes na Grã-Bretanha e 2,2 milhões de mortes nos Estados Unidos. Além disso, levaria para os hospitais um número de pacientes criticamente doentes maior do que eles poderiam receber. Por outro lado, o distanciamento social espalharia o número de pacientes críticos ao longo do tempo, dando aos hospitais recursos para lidar com o aumento de casos.  

Se essa conclusão soa familiar, é porque foi baseado nesse estudos que os governos brasileiros tomaram a decisão de promover o distanciamento social. O estado de São Paulo, primeiro da fila a acatar as orientações do estudo, iniciou o distanciamento social completo no dia 24/3/2020, uma semana após a comunicação de que medidas mais restritivas começariam a ser tomadas. Uma semana antes disso, no dia 17/3/2020, as escolas já haviam sido fechadas. 

Com quase duas semanas de medidas mais enérgicas de distanciamento social, SP já colhe os frutos de seus esforços. O estudo, feito pela Universidade de São Paulo e liderado pelo professor de física José Fernando Diniz Chubaci, mostra que o crescimento no número de casos no estado está em ritmo consideravelmente menor que no resto do país e hoje respondem por apenas 30% do total, patamar que já atingiu a marca dos 90%. Além disso, a curva gráfica que mostra números de casos dia após dia já começou a achatar. 

São Paulo lidera as políticas públicas de isolamento, mas mais do que isso, outros estados estão se preparando para lidar com os casos da pandemia. Veja o que cada região está fazendo no site da Agência Brasil.

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