Por Rubens Faria

Na França de 1799, uma criança foi encontrada abandonada nas ruas da cidade de Aveyron. O menino de 11 ou 12 anos estava nu, andava apoiado nos joelhos e nas mãos e não conseguia se comunicar. Foi conduzido para a polícia local a um orfanato próximo e, apesar das investigações, não houve família que o reclamasse. Ele foi apelidado de “criança selvagem” pela imprensa.

Sem que houvesse família que o reclamasse, o menino foi adotado pelo médico Jean Itard, conhecido como o Educador dos Surdos por seus trabalhos na área de otologia. Itard passou então a escrever a série de relatos chamada “Victor de Aveyron”, na qual descrevia minuciosamente o comportamento de Victor, desde a negação a se vestir até a dificuldade de reconhecer-se no espelho. Um ano depois do início dos relatos, Itard decidiu educar Victor. Contou com a ajuda de médicos psiquiatras e outros educadores, mas os avanços de Victor se mostraram insatisfatórios – pelas detalhadas descrições de seu comportamento e suas reações, a questão não era a de que fosse uma pessoa com retardo mental. Parece que ou não desejava dominar totalmente a fala humana ou que era incapaz de fazê-lo. Somente sob os cuidados da governanta de Itard, Madame Guérin, que Victor aprendeu a usar o banheiro e a vestir roupas.

Estes foram os primeiros relatos de um paciente dentro do espectro autista. Desde então, o transtorno ganharam muitos nomes, como loucura e melancolia, alienação da primeira infância, demência de Heller e demência precocíssima. Somente em 1940, encabeçados por dois médicos de origem austríaca que trabalhavam separadamente, Leo Kanner e Hans Asperger, que os estudos objetivos em crianças com comportamentos dentro do espectro autista começaram a ser desenvolvidos. Mas só em 1943 foi publicado o primeiro livro sobre o transtorno, Distúrbio Autístico do Contato Afetivo (Kanner).

É possível perceber que os estudos ainda são muito recentes para que fossem diagnosticadas pessoas idosas precocemente, isto é, na infância, dentro do espectro autista.

Foi isso que aconteceu com a escritora e palestrante Anita Brito. Depois do diagnóstico do filho, Nicolas, ela passou a observar com mais cuidado as atitudes de seu pai, Arnaldo. A desconfiança dela foi o ponto de partida para o diagnóstico, recebido 10 anos depois por meio da médica Sueli Paiva.

Durante 72 anos, Arnaldo viveu sem saber que estava dentro do espectro autista. Nem a família desconfiava que seria isso, uma vez que os diagnósticos de autismo no mundo só se popularizaram a partir da década de 1980. Com o diagnóstico, foi possível compreender atitudes e comportamentos que antes a família, amigos e colegas de trabalho julgavam como o jeito de ser de Arnaldo e, por isso, muitas vezes se afastavam por não tolerá-lo.

Uma vez diagnosticado, Arnaldo começou a ser acompanhado por psiquiatras e psicólogos que o ajudaram a levar uma vida mais saudável e confortável mentalmente, sendo compreendido pelas pessoas ao seu redor. Essa é a importância do diagnóstico, ainda que tardio.

Como identificar sinais que uma pessoa idosa possa ter Transtorno do Espectro Autista (TEA)

Segundo a AMA, Associação dos Amigos do Autista, “um diagnóstico de TEA envolve prejuízos na interação social e na comunicação, além da presença de padrões restritos de comportamento e interesses”.

O prejuízo nas interações sociais inclui:

  • Déficit no uso de formas não-verbais de comunicação e interação social; não desenvolvimento de relacionamentos com colegas;
  • Ausência de comportamentos que indiquem compartilhamento de experiências e de comunicação (Ex.: habilidade de “atenção compartilhada” – mostrando, trazendo ou apontando objetos de interesse para outras pessoas); e 
  • Falta de reciprocidade social ou emocional.

O prejuízo na comunicação inclui:

  • Atrasos no desenvolvimento da linguagem verbal, não acompanhados por uma tentativa de compensação por meio de modos alternativos de comunicação;
  • Prejuízo na capacidade de iniciar ou manter uma conversa com os demais;
  • Uso estereotipado e repetitivo da linguagem.

Os padrões restritivos repetitivos e estereotipados de comportamento, interesses e atividades incluem:

  • Preocupações abrangentes, intensas e rígidas com padrões estereotipados e restritos de interesse;
  • Adesão inflexível a rotinas ou rituais não-funcionais específicos;
  • Maneirismos estereotipados e repetitivos (tais como abanar a mão ou o dedo); e
  • Preocupação persistente com partes de objetos.

Se você perceber que algum dos padrões listados acima está presente no comportamento de uma pessoa idosa, busque por avaliações psiquiátrica e psicológica para descartar ou atestar o diagnóstico de TEA.

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