Tratamentos alternativos: fique atento aos riscos

Tratamentos alternativos: fique atento aos riscos

Fonte: Veja Saúde, Chloé Pinheiro
Edição: Rubens Faria

Paulinha Abelha era uma saudável cantora de 43 anos. À frente da banda de forró Calcinha Preta, tinha uma voz potente e um corpo considerado “padrão”. Em fevereiro, deu entrada em um hospital de Aracaju com problemas nos rins. Rapidamente, seu estado piorou, complicações surgiram em outros órgãos e, devido a uma infecção adquirida nesse momento de fragilidade, ela entrou em coma e faleceu.

Dada a severidade da situação, os médicos que a atenderam passaram a suspeitar que Paulinha tivesse sido intoxicada por alguma substância. Depois da morte, o programa Fantástico, da TV Globo, exibiu uma reportagem em que o marido da cantora conta que ela tomava com frequência diuréticos (remédios que eliminam água do organismo) e chás para emagrecer. Paulinha, segundo ele, recorria às fórmulas quando “queria dar uma secada”.

O triste caso, ainda sob apuração, veio à tona poucos dias depois de outra tragédia. Mara Abreu, uma enfermeira também saudável, de 42 anos, morreu em São Paulo após sofrer uma hepatite fulminante.

Na casa dela, a pedido dos médicos, a família achou cápsulas de um produto chamado “50 ervas emagrecedoras”. Mesmo proibido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) desde 2020, o composto é facilmente encontrado na internet.

Isso evidencia dois comportamentos (ou vacilos) antigos no país: o interesse absurdo por soluções milagrosas para o peso e a saúde e certa leniência das autoridades em relação a tudo que é “terapia alternativa”. No Brasil, elas não só são vendidas em qualquer esquina como práticas não estudadas ou já desmentidas pela ciência são ofertadas na rede pública.

“Todos querem uma solução rápida, fácil e indolor para suas queixas, e hoje temos um facilitador, que é o excesso de informação duvidosa disponível na internet”, analisa o endocrinologista Carlos Eduardo Barra Couri, pesquisador da Universidade de São Paulo (USP) em Ribeirão Preto.

Para além da faceta mais crítica do uso de uma erva potencialmente tóxica, a dita “medicina alternativa” é um balaio onde encontramos terapias que pouco ou nunca se mostraram eficazes e seguras em pesquisas robustas e confiáveis, sendo que a maioria é aplicada por não médicos — embora haja espaço para a pseudociência na medicina.

Fazem parte do grupo práticas tão diversas como uso de florais e remédios homeopáticos, diagnóstico de doenças pela leitura da íris, constelação familiar, cura por imposição de mãos… São centenas de métodos que, apesar de diferentes entre si, compartilham de uma mesma ideologia.

“Seu principal apelo é justamente o fato de estarem de fora do universo da ‘indústria farmacêutica’ e de uma medicina ‘muito técnica’, desconectada do paciente, mesmo que isso não seja verdade. Um exemplo é a medicina ortomolecular, que prega a ingestão de hiperdoses de vitaminas”, expõe o jornalista científico Carlos Orsi, do Instituto Questão de Ciência (IQC), que se debruça há anos sobre o assunto.

Só que, no meio de tanto joio, há aquelas abordagens que vêm sendo avaliadas em estudos e demonstrando resultados animadores, como acupuntura, meditação, ioga e algumas soluções fitoterápicas. E ninguém discorda do argumento de que a medicina deve, sim, ser mais acolhedora e humanizada. Para diferenciar uma coisa da outra, duas novas denominações foram criadas nesse campo: a medicina integrativa e a complementar.

“Elas trazem a ideia de adotar modalidades não para substituir um tratamento, mas para auxiliar o cuidado com práticas estudadas pela ciência que podem estar fora da medicina tradicional”, resume o médico Adam Perlman, da Clínica Mayo, nos Estados Unidos.

Perlman participa de um consórcio com mais de 75 instituições americanas, incluindo as principais universidades do país, para identificar que terapias não convencionais realmente têm algum valor.

Sem esse rigor metodológico, os perigos à espreita dos pacientes são muitos: do abandono de tratamentos que funcionariam à detecção de doenças em estágio tardio, quando não podem mais ser curadas, passando por danos diretos causados por um produto ou profissional que ninguém fiscaliza direito.

O combate às pseudoterapias é urgente, mas empaca em fortes obstáculos. E alguns estão dentro da nossa própria cabeça.

De inofensivas, nada

O caso dos chás e ervas supostamente emagrecedores é um dos melhores exemplos dos riscos envolvidos nas terapias alternativas. E de por que elas são tão atraentes.

Em primeiro lugar, parecem oferecer vantagens diante de uma condição complexa, cheia de estigmas e por vezes difícil de controlar, como a obesidade.

“Infelizmente, os médicos dificultam muito o tratamento real. Os endócrinos no geral estão bem preparados para isso, mas as outras especialidades frequentemente dão a impressão de que basta fechar a boca e ‘ter vergonha na cara’ para emagrecer”, diz a endocrinologista Lorena Amato, professora da Universidade Nove de Julho, na capital paulista.

Somam-se a isso os próprios temores dos pacientes em relação a abordagens mais consagradas (medicamentos e cirurgias) e a frustração e a ansiedade durante um longo plano de reeducação alimentar e prática de exercícios.

A saída, então, é buscar soluções mais rápidas por conta própria. “Uma pesquisa ouviu consumidores de fitoterápicos para emagrecer em um grande e-commerce a fim de entender os motivos que os levavam à compra. A resposta da maioria deles foi: ‘Porque o site não me julga’”, conta Lorena. “Ou seja, se o paciente se sentisse seguro e acolhido pelo profissional, provavelmente não precisaria recorrer a isso”, completa.

Pesa ainda o fato de a obesidade ser um problema crônico, que costuma exigir acompanhamento, exames e mudanças permanentes de comportamento. Nesse cenário, o discurso alternativo cai como uma luva, pois implica que há outra rota, menos agressiva ou exigente, para chegar lá — e, se natural, melhor ainda.

E é assim que seduz pessoas com outras doenças prevalentes, caso de hipertensão, depressão e diabetes. Sobre esse último, uma grande revisão de estudos publicada no European Journal of Pharmacology mostra que até 51% dos pacientes já partiram para algum método alternativo a fim de tratar a doença, sendo que os mais populares foram acupuntura, homeopatia e cura espiritual.

Para piorar, em 21% dos casos essa escolha implicou no abandono da terapia prescrita pelo médico, e 67% dos indivíduos nem tocaram no assunto no consultório.

O perigo mais óbvio disso é deixar de controlar uma doença capaz de deixar sequelas de uma forma comprovadamente eficaz e segura. No caso de chás e ervas, ainda há a ameaça de reações adversas, que acabam escondidas sob a alegação de que aquilo vem “da natureza”.

“Algumas substâncias, em especial as não regulamentadas pela Anvisa, podem atacar o fígado, que é um dos grandes órgãos desintoxicantes do corpo e por onde praticamente todo remédio, natural ou não, passa. Em um quadro como a hepatite fulminante, um composto tóxico promove uma destruição rápida de grande porcentagem das células do órgão”, descreve Lorena.

Não para aí, não. “Pode haver alterações gástricas, além de um efeito diurético em excesso, que leva à desidratação e traz riscos aos rins, fora os danos ao intestino provocados por substâncias laxativas”, nota a médica.

No caso específico do emagrecimento, mesmo aqueles produtos rotulados como “alimentícios” — cápsulas e chás para desinchar ou queimar gordura, por exemplo — merecem atenção. “A pessoa toma pensando que está emagrecendo, mas está perdendo apenas líquido, sem contar que deixa de investigar a real causa do inchaço, que pode ser uma condição de saúde tratável”, avisa a endocrinologista.

Fitoterapia não é bagunça

“O que provocou a morte da enfermeira não é nem um chá nem algo que possa ser considerado um fitoterápico. É um produto clandestino, cuja real composição, eficácia e segurança desconhecemos”, adianta o farmacêutico Leandro Medeiros, professor da Universidade Católica de Pernambuco.

O esclarecimento é importante para lembrar que a fitoterapia séria engloba métodos e profissionais comprometidos. Abrange desde ervas tradicionais como o boldo para aquele mal-estar a produtos regulamentados e comercializados nas farmácias.

Trata-se de um campo promissor para estudos, com formulações hoje aptas a aliviar sintomas mais brandos como dor de garganta, náusea e dificuldade transitória para dormir.

Só que muita tranqueira acaba se vendendo como “cura natural”. “Você tem compostos vegetais com perfil de segurança e eficácia conhecidos, mas teorias quase esotéricas com determinadas flores e ervas. Mistura-se ciência com picaretagem”, aponta Orsi.

Uma doença que frequentemente leva as pessoas à busca de soluções mágicas é o câncer. Não faltam teorias por aí de que um tumor pode ser prevenido com força de vontade, e até mesmo tratado ao atacar uma possível causa espiritual ou tomar um composto milagroso.

Em 2017, o jornalista Marcelo Rezende morreu de câncer depois de abandonar seu tratamento para apostar em dietas e coisas como banhos de sal do Himalaia.

“Na oncologia, preocupa muito a falta de informação, porque o desfecho não é só uma diarreia por tomar um chá. A grande questão é que pagamos com a vida ao atrasar tratamentos e diagnósticos, porque tumores iniciais combatidos adequadamente terão maior chance de cura”, explica o oncologista Thiago Chulam, diretor do Departamento de Prevenção e Diagnóstico Precoce do A.C.Camargo Cancer Center, em São Paulo.

Uma pesquisa recente dessa instituição junto ao Hospital Alemão Oswaldo Cruz revela que, num grupo de 319 pacientes oncológicos, 34% recorreram a práticas alternativas — destaque para a cirurgia espiritual — e 66% nunca discutiram o tema com o médico.

A ideia de psicologizar (ou mesmo espiritualizar) a origem da doença tem nuances problemáticas. “Uma falta de apetite, por exemplo, pode ser interpretada como um movimento de ‘entregar os pontos’, sendo que, na verdade, é uma consequência da doença ou do tratamento que requer atenção médica”, diz o paliativista Daniel Neves Forte, coordenador da equipe de Cuidados Paliativos do Hospital Sírio-Libanês, na capital paulista.

Assim como a Clínica Mayo e outros hospitais prestigiados lá fora, centros de renome no Brasil como o Sírio e o A.C.Camargo entendem que há lugar para terapias que visam ao bem-estar do paciente e tenham uma pegada mais holística, desde que baseadas em evidências e respeitando as devidas limitações.

“Não consigo chamar de medicina nada que não se submeta à ciência, mas a profissão também é uma prática de humildade, porque, pela própria estrutura do método científico, nunca saberemos tudo. Nesse sentido, não vejo problemas em usar práticas de cuidado multidisciplinares de baixo risco que buscam promover relaxamento e qualidade de vida, desde que sejam esclarecidas e consentidas”, opina Forte.

Ele cita o caso de um paciente internado que só melhorou da insônia com massoterapia, depois de já se mostrar resistente ao tratamento com medicamentos e outras intervenções. A redução de ansiedade, estresse, fadiga e medo está entre os principais objetivos da inclusão da medicina integrativa na jornada contra o câncer.

“É um equívoco entender que o cuidado de um paciente se esgota na prescrição do tratamento”, ressalta o médico de família Angelmar Roman, da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (SBMFC).

O ponto é que há quem se apoie nesse discurso para ir mais longe e passar por cima até da ética da profissão. “Tem pessoas que se aproveitam do desespero de alguém que quer se sentir melhor frente ao diagnóstico de uma doença grave para oferecer, por exemplo, megadoses de vitamina D e outras práticas sem comprovação”, relata Fortes.

E é questionável a máxima do “mal não faz” por trás de ideias aparentemente inofensivas como a homeopatia, que se apoia numa teoria de mais de 200 anos que continua sendo desacreditada pela ciência, ou técnicas que prometem uma cura energética pela imposição das mãos.

Por trás do raciocínio de que tomar gotas com componentes diluídos ou trocar vibrações são saídas eficientes reside a expectativa (ou ilusão) de se ter uma resposta para tudo no cotidiano.

Não deixa de ser uma espécie de medicalização às avessas, que usa, em vez de fármacos, alternativas para qualquer finalidade.

“Você pode estar se sentindo para baixo e tomar um floral, e de fato ficar feliz, mas isso provavelmente se deve ao efeito placebo [acreditar que vai melhorar] ou a outras razões sociais e biológicas. O mesmo ocorre com a Covid-19: o indivíduo toma cloroquina e melhora, o que teria acontecido com ou sem o remédio, pois esse é o curso natural da doença em mais de 90% dos casos. Se você acredita nisso para algo mais leve, por que não pensaria assim diante de um câncer?”, reflete o divulgador científico Wasim Syed, da União Pró-Vacina.

A pessoa até compra uma ideia inofensiva, porque ninguém fala oficialmente em abandonar tratamentos convencionais, mas pode acabar levando para casa teorias da conspiração de brinde. E é nessas que vira vítima de um charlatão ou de um profissional de boa-fé, mas que pouco entende do riscado.

O cérebro humano é uma máquina fantástica, que ainda esconde muitos segredos. Um dos mais deslumbrantes mistérios é o efeito placebo, processo capaz de desencadear mudanças químicas e físicas que levam à melhora de sintomas.

Para que ele ocorra, não são necessárias condições tão específicas: basta ser convencido de que aquilo que você está tomando ou fazendo terá alguma utilidade. “Acreditar que está sendo tratado já pode produzir efeitos físicos e mentais”, afirma o psicólogo social Ronaldo Pilati, professor da Universidade de Brasília (UnB) e autor do livro Ciência e Pseudociência, da Editora Contexto.

Invocando essa habilidade, muitas práticas podem funcionar em certos cenários, como as gotinhas de água aromatizada com um pouco de álcool dos florais. Tanto que, nos estudos com dores, alterações de humor e outros sintomas subjetivos, é difícil distinguir o placebo da ação terapêutica.

“Fizemos uma pesquisa com pacientes com fibromialgia divididos em dois grupos, metade tomando terapia intravenosa com vitaminas de verdade, metade recebendo soro fisiológico. As duas táticas conseguiram reduzir as dores de maneira semelhante. No fim das contas, a ação das vitaminas não foi estatisticamente relevante por causa da força do efeito placebo”, ilustra Perlman, da Clínica Mayo.

O leitor, se for curioso como a autora, há de se perguntar: se isso acontece sem que seja necessário tomar remédios como antidepressivos ou analgésicos, qual seria o problema de explorar esse superpoder da mente?

De fato, o efeito placebo pode ser estudado para fins terapêuticos. E isso já está acontecendo. Só que, até agora, não sabemos bem como manipulá-lo de um jeito que não envolva enganar a pessoa (o que é antiético). E há outros desafios. “Uma das preocupações em considerá-lo como intervenção é que o alívio das queixas tende a ser temporário”, sinaliza Perlman.

“Fora que, por amenizar sintomas e não tratar de verdade doenças existentes, o quadro pode ir se agravando até chegar a um ponto difícil de controlar”, esclarece o psiquiatra Cláudio Martins, vice-presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP).

Quando vão bem nas pesquisas, táticas como a homeopatia no máximo se igualam ao placebo. Assim, seria melhor buscar estratégias que ao menos ultrapassem essa linha de corte cognitiva. Outra questão, ou melhor, efeito, é o bola de neve: se o sujeito tomou um placebo e ficou numa boa, reforça sua crença naquele ritual em específico. E o cérebro ama um reforço positivo!

Os mecanismos de crença são tão intrínsecos à cognição humana e à organização da sociedade que provavelmente surgiram há dezenas de milênios, quando sofremos o salto evolutivo que nos promoveu a Homo sapiens.

“Temos uma necessidade de precisão e previsão no nosso dia a dia. Precisamos ser capazes de confiar que o elevador não vai cair, que um prédio sustenta suas lajes, e inconscientemente reforçamos esses pensamentos a todo momento”, diz Pilati.

Só que nem tudo é concreto. No imaterial campo das ideias e convicções, podemos acreditar em qualquer sistema, especialmente se ele estiver assentado em uma teoria bem construída, que associa fatos e dá evidências pessoais e anedóticas — “Sempre usei e funcionou” ou “Trato pessoas há anos sem reclamações”.

Ninguém está errado, portanto, por acreditar em algo sem explicação “científica”, como uma visão esotérica ou um dogma religioso. E todo cidadão tem o direito e a liberdade para escolher que caminho tomar. O erro é transpor esse raciocínio para práticas de saúde com terceiros, limitar o acesso a dados verídicos e tomar decisões públicas com base nisso.

A busca por infalibilidade na nossa compreensão do mundo tem um efeito colateral pernicioso: a dificuldade de largar o osso quando acreditamos em algo que deixa de fazer sentido.

Ao recebermos provas que contradizem algo em que cremos, a tendência é refutar de imediato e tentar racionalizar aquilo. “A pessoa insere mais elementos para manter uma perspectiva racional à sua crença. Se ela crê que o homem não foi à Lua e vê uma foto tirada do espaço, diz que a agência espacial está envolvida num conluio”, compara Pilati.

E o oposto também acontece: somos mais benevolentes e receptivos com histórias que confirmam o que pensamos, em especial quando elas vêm de casos próximos. Fazer um exame crítico de teorias e causos, desprovido de paixões, é um desafio inclusive para os profissionais que lidam com ciência e saúde.

O contexto social também influencia os mecanismos de crença. Não basta acreditar em algo, é preciso compartilhar com a tribo. “No caso das terapias alternativas, há comunidades consolidadas de profissionais, que criam associações, revistas, redes virtuais… Sem contar os elementos da própria cultura popular, vindos de crenças repassadas de geração em geração”, observa o professor da UnB.

O fato de termos um longo histórico de curas religiosas e uso de ervas, por exemplo, até ajuda a explicar parte das preferências, mas, atualmente, grande parcela das práticas alternativas difundidas no país não são originais ou tradicionais. Vieram principalmente da Europa e dos EUA na esteira do movimento new age, corrente que buscou promover um saber místico sobre o mundo a partir dos anos 1970.

Alternativa oficializada

A institucionalização das terapias não convencionais envolve o reconhecimento de abordagens por conselhos profissionais — a homeopatia é uma especialidade avalizada pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) — e por leis e projetos de Estado, o que as tinge de um verniz ainda mais positivo. A Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC), criada em 2006 para incluir tratamentos complementares no SUS, hoje reúne 29 abordagens, algumas no mínimo questionáveis. Poucas de fato têm origem no “saber ancestral ou popular”. Há modalidades importadas, carentes de provas científicas e cercadas de controvérsias.

É o caso da constelação familiar, bolada por um alemão nos anos 1970 e criticada por fazer o indivíduo reviver traumas sem o devido suporte e por reforçar estereótipos familiares. E da quiropraxia, cujo inventor foi processado por charlatanismo e cujos terapeutas nem sempre têm formação adequada.

Verdade que essa política pública foi instituída com boas intenções. “A PNPIC foi uma luta dos grupos de médicos fitoterapeutas, acupunturistas e homeopatas e demais profissionais em defesa da inclusão no SUS de práticas que podem reduzir a medicalização, promover a saúde, reduzir o estresse e humanizar o cuidado”, diz a médica homeopata Henriqueta Sacramento, professora da Escola Superior de Ciências da Santa Casa de Misericórdia de Vitória (ES), que atua junto à prefeitura da cidade na elaboração das diretrizes do programa.

A depender do município, o projeto engloba iniciativas como atividades em grupo, hortas comunitárias e o uso corrente da fitoterapia. E ninguém propõe que isso substitua o cuidado médico. O duro é que, em meio a tantas abordagens, costuma-se fechar os olhos a certos dilemas, como terapias cujos efeitos, negativos ou positivos, não foram medidos apropriadamente em pesquisas. Além disso, não existe um critério bem definido para determinar que práticas merecem ou não entrar na PNPIC. O método, portanto, contrasta com o que é estabelecido para remédios e intervenções médicas, que, após os estudos, passam pela Anvisa e por uma comissão de avaliação de incorporação de novas tecnologias do governo.

“As abordagens alternativas têm uma regulação frouxa e perigosa. Algumas coisas não exigem sequer formação em saúde, como o reiki, que não é olhado pelos ministérios da Saúde, da Educação ou do Trabalho”, aponta o antropólogo Rodrigo Toniol, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Toniol vê como problemática ainda a aproximação entre saúde pública e crenças em tratamentos que evocam a espiritualidade. “Há o argumento de que eles assistem a dimensão espiritual da saúde, por meio do lobby de diversos grupos, religiosos ou não, com seus interesses políticos e sociais. Cada onda quebra para um lado e todas dão na mesma praia: a legitimação desse discurso”, diz.

Não é que a espiritualidade deva ser encarada como algo irrelevante para a saúde ou deixada de ser explorada em estudos. Pesquisas constatam que uma assistência que acolha o indivíduo como um todo aumenta a resposta aos tratamentos. E alguns trabalhos indicam que indivíduos espiritualizados se cuidam mais e reagem melhor a doenças. Da mesma forma, práticas tradicionais de uma comunidade, como as indígenas, devem ser respeitadas pelos gestores públicos. O desafio é demarcar bem a linha entre o que deve ser incorporado num posto de saúde e o que deve ficar em outros departamentos. Sem esquecer que a tese alardeada de que a ciência não é suficiente para explicar ou determinar as coisas nessa área pode abrir caminho a confusões e retrocessos.

A PNPIC contempla hoje 29 abordagens. O Ministério da Saúde ressalta que ela não é uma diretriz ou um protocolo, apenas permite que estados e municípios gastem recursos que já receberiam normalmente. Se uma prefeitura quiser distribuir florais para confortar vítimas de tragédias e “prevenir doenças de enchentes”, como ocorreu em Brumadinho (MG) no início do ano, pode usar sua verba para isso. Em 2020, foram registradas mais de 1,3 milhão de sessões dessas práticas na rede pública do país.

Não temos nem 200 anos de medicina baseada em experimentos científicos, o método e a prática mais aceitos nos dias de hoje. Só com testes em diferentes etapas podemos garantir a eficácia e a segurança de uma intervenção, comparando grupos que receberam o tratamento com placebo ou outras terapias e, depois, submetendo os resultados ao escrutínio da comunidade acadêmica internacional.

Sem esse protocolo, apesar de eventuais limitações, não dá para bater o martelo para nada. “O apelo à tradição, à natureza e ao misticismo é uma falácia aplicada com frequência às medicinas alternativas”, afirma o médico Edzard Ernst, professor da Universidade de Exeter, na Inglaterra, e um dos principais críticos dessas práticas. Ele fala com conhecimento de causa: veio de uma família de homeopatas e fez uma série de pesquisas com essa e outras terapias, cujos resultados examinou em incontáveis artigos e livros. E conhecimento da história: sangria e arsênico foram usados por séculos como tratamentos e, no fim das contas, faziam mal aos pacientes. Para ele, a penetração da dita medicina alternativa na sociedade e na política indica que seu trabalho “está longe de terminar”. Em 2020, Ernst participou do lançamento de um manifesto global de mais de 3 mil estudiosos contra as pseudociências na saúde.

“Sejamos claros: elas matam”, sentencia o texto. Fugindo do “alternativo”, mas sem entrar no “convencional”, reaparece aquele conceito de medicina integrativa. “Esse cuidado integral e a busca por modalidades fora do mainstream são demandas crescentes dos pacientes. Portanto, a comunidade médica precisa estar atenta a isso”, justifica Perlman. Só que mesmo essa terminologia enfrenta críticas. “É um nome bonito, mas que não representa uma especialidade em si, ao menos não no Brasil. E, além disso, toda medicina já deveria ser integrativa e humana”, avalia Couri.

“A todo tratamento que funciona devemos chamar simplesmente medicina”, define Ernst. Diretrizes claras para testar e adotar qualquer tipo de terapia, clássica ou complementar, são uma demanda crucial. Mas uma discussão que deveria envolver toda a categoria, afogada em um sistema em que consultas não raro duram cinco minutos, não pode ficar relegada a uma nova especialidade e pronto, problema resolvido.

Ciência x pseudociência

À primeira vista, bastaria dizer que pseudociência é aquela teoria que passou pelo crivo dos testes rigorosos e foi descartada — ou não encontra sustentação à luz da ciência. Só que não é tão simples assim. “Teorias falsas também podem funcionar bem com dados empíricos”, nota o filósofo Cristiano Rezende, professor da Universidade Federal de Goiás (UFG). A evidência empírica, obtida por meio de experimentos, não comprova uma hipótese, mas é suficiente para descartá-la — se sucessivos estudos concluem que algo não funciona, então a tese não faz sentido. Agora, mesmo se der certo em centenas de testes, a qualquer momento novas evidências podem invalidar o raciocínio. A diferença entre as duas visões está justamente na abertura à refutação. “Enquanto a ciência se assume como um êxito transitório e calcula margens de erro e ferramentas para coibir vieses, ciente de suas próprias deficiências, a pseudociência se blinda das críticas e se vende como algo infalível, que rejeita o que lhe é contrário”, delimita Rezende. É até por isso que o argumento de que a ciência não explica tudo faz sentido. “A defesa da ciência não pode levar a um totalitarismo que despreza outros tipos de saber, como a religião e a arte, mas é preciso ter claro o papel que cada um deles desempenha na sociedade”, afirma o filósofo. Ou seja, não dá para uma intuição, convicção ou crença nortear um tratamento médico ou uma política de saúde.

A certeza da incerteza é um dos aspectos mais desafiadores do meio científico — inclusive por causa do nosso modus operandi cognitivo. Para complicar, a dúvida também é explorada pelo outro lado, não como motivo para seguir buscando conhecimento, mas para fomentar o medo de que há uma conspiração contra as pessoas “comuns”. Aliás, foi essa linha de pensamento que permitiu que empresas e profissionais lucrassem vendendo remédios ineficazes contra a Covid-19. Parecem tópicos distantes entre si, mas não são. O deputado federal Giovani Cherini (PDT/RS), que desde 2004 organiza o Encontro Holístico Brasileiro, se manifestou várias vezes em favor da cloroquina. Maria Emília Gadelha Serra, presidente da Sociedade Brasileira de Ozonioterapia Médica, é uma das principais articuladoras do movimento antivacina.

Talvez a situação dramática da pandemia seja a oportunidade para repensar nossas crenças sobre saúde e quanto deixamos o pensamento mágico influenciar as decisões que tomamos em relação a ela. Essa mudança pode salvar vidas e economizar dinheiro, mas não é fácil. “Não é só a dificuldade de romper com um pensamento, mas de perder todos os benefícios psicológicos ligados à fantasia de controle que o ser humano tem para aplacar a fragilidade da existência”, resume Rezende.

Valorizar práticas de povos tradicionais não quer dizer apostar em um curandeiro para eliminar doenças, mas ter uma visão mais inclusiva sobre fatores sociais e culturais que são importantes para a saúde de uma comunidade. “Quando atuei em regiões indígenas, sempre dizia que os pacientes podiam ser benzidos pelo pajé, desde que não deixassem de tomar seus remédios”, conta Melkides Diniz, médico de família da etnia baré, que cresceu no Amazonas e hoje vive em São Paulo. Read More

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