Por Rubens Faria

De acordo com o dicionário Priberam, hobby é uma atividade favorita que desvia a rotina de ocupações habituais. Ou seja, para uma atividade ser considerada um hobby, ela deve ser, primeiramente, escolhida, e não mandatória; deve ser uma ocupação que você sente prazer ao ser desafiado a executar; e, por fim, serve para te tirar do “automático” do dia a dia e espairecer a cabeça.

Mais do que um simples passatempo, ter um ou vários hobbies é terapêutico. O hobby exercita funções motoras e cognitivas, serve de fuga à solidão e é um forte aliado no combate à depressão por incentivar o aprendizado, a socialização e dar um novo colorido aos dias. Se o hobby calha de ser uma prática esportiva, os benefícios vão além, contribuindo para o aumento da ingesta alimentar, ganho de massa magra e perda de massa gorda, equilíbrio, autonomia e prevenção de doenças dos sistemas cardiovascular e respiratório.

Para além disso, os hobbies ressignificam propósitos de vida e promovem a motivação por meio de planejamento, visão de futuro, expectativa e disposição. Eles também podem resgatar sonhos há muito esquecidos por falta de tempo ou vontade. Questões subjetivas como essas são essenciais para a manutenção da saúde mental na velhice, período em que as pessoas começam a acreditar que não há motivos para correr atrás de novas experiências de vida.

Descobrindo novos hobbies

Gilberto Godoy, psicólogo especializado em terapia do idoso, recomenda que ter uma motivação para viver e atividades agradáveis são essenciais para uma velhice saudável. Para ajudar a pessoa idosa nessa busca, Gilberto sugere fazer um levantamento da história de vida deles e encontrar algo que já foi motivo de satisfação no passado. “Quando as pessoas são felizes? Quando elas fazem aquilo de que gostam, está relacionado a se sentir bem fazendo, e fazendo bem”, explica.

A rede de amparo social é outro fator importante. O idoso precisa estabelecer uma rede social com os amigos e familiares. “A velhice é um momento em que as pessoas tendem a isolar os idosos”, critica. Segundo Gilberto, é preciso entender que hoje — mais do que antes — o psiquismo não envelhece na mesma velocidade que o corpo.

Para te ajudar nessa busca, o Correio Braziliense entrevistou quatro pessoas que descobriram novos prazeres após os 60 anos. Confira a história deles!

Meu momento é agora

“A idade é uma coisa que preocupa. Eu não posso deixar de fazer a viagem que eu quero fazer esta semana e adiar para a semana que vem. Eu tenho 65 anos, a expectativa do brasileiro é de 74”, comenta o empresário e advogado Celso Ferreira. Esse foi o raciocínio que o incentivou a comprar uma motocicleta em 2010. Ele acreditava que havia trabalhado muito e que merecia adquirir o bem e passear sobre duas rodas.

Um amigo o acompanhou na ideia, cada um comprou uma moto e começaram a combinar passeios tímidos. Um almoço na Vila Planalto, um pulo em Formosa e uma ida ao Jerivá foram as primeiras aventuras. Aos poucos, as distâncias foram aumentando, Patos de Minas, Pirapora e Ouro Preto entraram para o roteiro dos motociclistas. No começo, só viajava na companhia dos amigos porque todos diziam que era perigoso fazê-lo sozinho.

Até que, em cima da hora, um passeio em grupo não deu certo. “Eu vou deixar de fazer as coisas da minha vida porque os outros não podem?”, questionou-se. A partir de então, deixou o medo de lado. Celso planejava as viagens que queria fazer e convidava todos os amigos, mas, se ninguém pudesse acompanhar, ele ia do mesmo jeito.

Rio de Janeiro, Foz do Iguaçu, Peru, Colômbia, Guatemala, El Salvador, Chile, Ushuaia, na Argentina, e Alasca, nos Estados Unidos, são alguns dos lugares que este destemido advogado já visitou na companhia da sua moto. Foram 36 dias na estrada para chegar ao Ushuaia e 84, até o Alasca. O motociclista define o percurso de Harley Davidson até o extremo dos Estados Unidos como espetacular. “Foi para provar para mim mesmo que eu era capaz de muito mais do que eu imaginava”

Os familiares sempre ficam um pouco apreensivos, mas Celso faz questão de dar notícias frequentemente. Quando não há internet, usa um aparelho com sinal de satélite. “Eles sabem que eu me dediquei muito ao trabalho e à família. Chega uma hora que a gente tem que se dedicar a nós mesmos. Eu tô curtindo a vida”, ressalta.

Em 2016, Celso deu início a um projeto especial para ele. Quer visitar todos os 853 municípios de Minas Gerais — já se foram 653. O motociclista diz que, apesar da lista extensa de viagens, essa está sendo muito marcante. Ele nasceu em Patos de Minas, saiu com 1 ano para morar em Belo Horizonte com a família, veio para Brasília aos 14 e só retornou à cidade natal, para visitar, com 30 anos de idade.

“A viagem por Minas está me proporcionando um retorno à origem do meu estado, que eu não conheci. Eu já visitei 18 países e posso dizer: não existem pessoas como os mineiros”, acrescenta.

Esta semana, Celso partiu para uma viagem rumo ao Nordeste. Vai visitar todas as capitais da região. Salvador é a primeira parada do roteiro e ele só pretende parar quando chegar a São Luís. “Vou devagar, parando pelo caminho, sem data exata para voltar. A única coisa certa é o destino: sempre a minha casa”, explica o advogado.

Depois de ter rodado mais de 300 mil quilômetros, Celso defende que o mais importante é não ter medo. “Perigoso é ficar dentro de casa.” Ele não sabe se vai conseguir manter o ritmo até os 80 anos, mas garante que, enquanto puder pilotar uma moto, vai viajar. “As pessoas deixam de fazer as coisas porque estão sem tempo. Hoje, eu viajo muito porque tô sem tempo. Tenho 65 anos, meu tempo está acabando”, alerta. 

Correndo com o tempo

Jackson Jacobina, 65 anos, trabalhou durante 31 como funcionário do Banco do Brasil. Passou por agências e se aposentou há aproximadamente 10 anos como auditor interno. Durante esse período, acordava por volta das 6h todos os dias para dar início à rotina. Arrumava-se, tomava café, deixava os filhos na escola e ia trabalhar.

Mesmo aposentado, continua se levantando no mesmo horário. Porém, para se dedicar a um hobby que adquiriu em 2011: a corrida. Jackson conta que sempre gostou de praticar esportes e frequentava a academia regularmente, mas correr não era algo que despertava o seu interesse. “Não gostava, eu tinha preguiça só de pensar que teria de voltar o caminho inteiro”, confessa. Conheceu Felipe, proprietário da assessoria de corrida Time, e, aos poucos, foi deixando a preguiça de lado.

O futebol que jogava tradicionalmente com amigos e familiares, nos fins de semana, foi perdendo espaço. “Tinha medo de sofrer lesões que poderiam comprometer meu desempenho na corrida.” A atividade, que começou como lazer, rapidamente se tornou algo mais sério. Com apenas seis meses de treino, Jackson sentiu vontade de participar da meia maratona no Rio de Janeiro. O treinador disse que normalmente esperaria um ano, mas, como o aposentado já estava acostumado a se exercitar, poderia tentar. O resultado surpreendeu e lhe deu mais motivação.

Atualmente, Jackson Jacobina corre três vezes por semana e alterna entre os seguintes locais: Parque da Cidade, Orla da Ponte JK e Parque Olhos D’Água. Dias de chuva também não são motivo para parar. Nessas ocasiões, ele opta pela academia. Duas vezes por semana, faz aulas de natação. Para ele, a aposentadoria nunca foi sinônimo de tristeza ou de ócio.

“Sempre gostei de me exercitar, e a corrida é um vício bom. É um desafio consigo mesmo, superar seus limites. É muito bom para a autoestima estar com pessoas que têm a metade da minha idade e perceber que estou competindo em igualdade de condições”, afirma Jackson. Segundo o corredor, os colegas dizem que ele é o máximo e isso é mais uma fonte de motivação.

Jackson ressalta que nunca imaginou chegar onde chegou. O currículo de provas é extenso. Foram cinco maratonas, mais de 30 meias maratonas, algumas corridas de 10 milhas e muitas de 10 quilômetros. “Acho que já participei de umas 100 corridas.” Este ano, ele conseguiu concluir uma corrida que é o sonho de todo maratonista: a Major de Boston. Foram 42 quilômetros com vento frio e chuva, duas mil pessoas tiveram hipotermia. Jackson completou o desafio e fez um de seus melhores tempos.

Além do esporte, o funcionário público aposentado gosta de se dedicar ao quintal de casa. Ele passa horas cuidando da horta e da piscina. Com frequência, também se encontra com amigos e familiares. Uma vez por mês, visita um asilo que ajuda em Águas Lindas de Goiás. “Não passa pela minha cabeça ficar sentado dentro de casa esperando o tempo passar. A verdade é que me falta tempo para fazer tudo o que gostaria”, conclui Jackson.

Agora, ele se prepara para a meia maratona de Fernando de Noronha, no fim do ano. Em 2019, pretende tentar outra prova da categoria Major, como Berlim ou Chicago. E será que ele pensa em competir em uma prova de triatlo? “Claro. Por que não?”, responde o atleta.

Aprendizado constante

Um dos pilares para continuar vivendo bem mesmo depois da aposentadoria é o esforço cognitivo. Aprender algo novo, ainda que não exija muito, auxilia no desenvolvimento cerebral. Ceres Cerceira, 67 anos, buscou desafios maiores. Depois de se aposentar como servidora pública, ela se dedicou a outras atividades, como a arte, e resolveu prestar vestibular para direito no Centro Universitário Uniceub.

“As pessoas me questionaram muito no começo, me perguntando se eu enlouqueci. Eu tinha a vida muito tranquila e tempo livre para atividades de lazer. Quando eu tive que abdicar de tudo isso, acharam que não duraria”, conta.

Mas, ao contrário do que esperavam, Ceres foi muito bem acolhida no ambiente estudantil. Agora, no quarto ano do curso, sente que fez a escolha certa. “Passamos a lidar com muitos jovens e isso faz com que a gente se renove e se sinta viva de forma intensa”, completa.

Quem dança os males espanta

Movimentar-se é o que há de melhor para manter os músculos e a força em alta. Assim que Maria Ozídia Junqueira, 59 anos, deixou de atuar na área de finanças, aproveitou para se dedicar a uma paixão antiga: a dança. “Eu sempre admirei quem tinha essa habilidade e, quando me aposentei, passei a curtir a vida, cuidar mais de mim e tive a oportunidade de fazer as coisas de que gosto com mais tranquilidade”, relata.

Exercitar-se faz bem em todos os sentidos. O físico e a mente atuam juntos e proporcionam mais vigor às atividades do cotidiano. “É uma coisa que me deixa muito feliz, e eu acho muito interessante para pessoas mais velhas porque, além de dançar, você deve estar sempre atento e trabalhando o cérebro para memorizar os passos”, diz.

O treino é intenso: todos os dias, pelo menos por duas horas, Maria Ozídia e o professor de dança de salão estão ensaiando os passos. Para ela, todo tipo de dança é bem-vindo. A aposentada também participa do grupo Divas Dance.

Para especialistas, quando o assunto é envelhecimento saudável, participar de atividades coletivas é fundamental para estabelecer uma rede social. O grupo de mulheres entre 50 e 80 anos do Divas Dance cria um vínculo muito forte. “Nós somos mais ou menos da mesma idade, temos objetivos em comum e vivemos uma dança leve, sem cobranças”, descreve. “Eu e minhas amigas temos melhora em relacionamentos, humor, é uma coisa que eu não esperava que fosse tão bom.”

A aposentada criou tanto gosto pela dança que agora faz apresentações pelo país afora. Este ano, participou de um cruzeiro de dança, que pretende repetir no ano que vem. Deve fazer ainda mais duas apresentações. Este mês e em dezembro, Maria Ozídia vai dançar em Porto Alegre. “Ando muito empolgada com a dança, eu me sinto rejuvenescida. As pessoas que me conhecem dizem que eu pareço mais feliz, e realmente estou”, alegra-se. 

Fonte: Correio Braziliense

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